CENTRALIZAÇÃO E SEDENTARIZAÇÃO WAYANA E APARAI: UM ESTUDO DE MEMÓRIAS COLETIVAS SOBRE UM PROCESSO ESTATAL NO NORTE DO PARÁ
Wayana e Aparai; memória coletiva; sedentarização; territorialidade; resistência sociocultural.
A memória coletiva é um pilar fundamental para a construção do pertencimento individual e da identidade de grupos sociais. Eventos históricos de ruptura, muitas vezes traumáticos, repercutem na organização social e nas estratégias de resistência de um povo. Nesse contexto, este estudo aborda o processo de centralização e sedentarização dos povos indígenas Wayana e Aparai, ocorrido durante o regime militar brasileiro (1964–1985), quando o Estado, sob a justificativa de integração nacional e abertura de territórios ao mercado, especialmente para a construção da rodovia BR-210 (Perimetral Norte), no Amapá, implementou o Posto de Integração Nacional (PIN) Apalaí, hoje conhecido como Aldeia Bona. A questão científica que orienta esta investigação é: como o estabelecimento de serviços e instituições do Estado na Aldeia Bona tensionaram e tensionam a organização sociopolítica tradicional Wayana e Aparai, e de que forma a memória coletiva atua como dispositivo de reexistência e ressignificação do território na atualidade? O objetivo geral consiste em analisar as transformações concretas e simbólicas resultantes do processo de centralização e sedentarização dos Wayana e Aparai em torno da Aldeia Bona, investigando como a memória coletiva opera como mecanismo de resistência e manutenção da identidade frente aos impactos das políticas estatais implementadas durante o regime militar. Os objetivos específicos incluem identificar e mapear as estratégias de ocupação originárias; sistematizar o contraponto historiográfico das narrativas indígenas em relação aos dados de órgãos oficiais (como a FUNAI) e depoimentos de servidores da época sobre o processo de centralização; analisar histórias de vida e memórias coletivas por meio de relatos das experiências individuais e coletivas desse deslocamento; documentar o período de ruptura com testemunhos de anciãos e lideranças sobre eventos críticos, como a abertura da rodovia Perimetral Norte (BR-210) e seus impactos sanitários e sociais; investigar a reconfiguração sociocultural com alteração das dinâmicas de parentesco, dos rituais (como o Maraké) e da autonomia dos grupos frente ao poder tutelar; identificar os saberes e fazeres mobilizados pelos Wayana e Aparai como formas de resistência e sobrevivência diante da sedentarização; promover a justiça cognitiva por meio de oficinas de cartografia participativa e da organização de um acervo digital que funcione como ferramenta de gestão territorial e pedagógica para a Associação dos Povos Indígenas Wayana e Aparai (APIWA). A metodologia adotada é qualitativa, fundamentada na Epistemologia da Escuta e na Descolonização do Olhar. Serão mobilizadas técnicas de História Oral, Memória Sensível e Diário de Campo, articuladas a uma imersão etnográfica na Aldeia Bona, com observação da rotina e análise dos possíveis resultados. Os resultados esperados incluem a sistematização de um acervo digital colaborativo, a produção de materiais didáticos e a valorização das narrativas indígenas como instrumentos de fortalecimento cultural e político, contribuindo para a autonomia dos Wayana e Aparai frente às pressões contemporâneas.