O que está acontecendo na Amazônia?

Os ecossistemas do bioma amazônico estão ameaçados por desmatamento, incêndios e secas. Com o tempo, esses distúrbios podem acabar transformando permanentemente as florestas em áreas semelhantes às savanas, o que poderia ter efeitos devastadores de longo prazo em todo o mundo. Por conta disso, um grupo de pesquisadores em clima e meio ambiente buscou entender os efeitos coletivos dessas perturbações recentes em fragmentos de florestas tropicais.

Os primeiros resultados da pesquisa foram publicados por Scott C. Stark, pesquisador do Departamento de Silvicultura, da Universidade de Michigan, em colaboração com pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais da Amazônia da Universidade Federal do Oeste do Pará (PPGRNA-Ufopa) e também outras instituições como a Universidade do Arizona, o Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA) e Embrapa Amazônia Oriental, no artigo “Reframing tropical savannization: linking changes in canopystructure to energy balance alterations that impact climate”, na Ecosphere, na seção Innovative Viewpoints.

De acordo com a pesquisa, é possível ter floresta ou savana em regiões de clima e precipitação semelhantes. No entanto, a principal coisa que as mantém diferentes uma da outra é o fogo. “Savanas existem quando há fogo periódico”, disse Stark. “Para reduzir o aquecimento global, é melhor manter as florestas tropicais do que transforma-las em savanas tropicais.”

Mudanças climáticas antrópica – O problema é o que os ecologistas chamam de "perturbação", explica Stark. “Os distúrbios incluem secas, que pioram com as mudanças climáticas. Secas e outros distúrbios matam árvores, e você certamente espera que isso ajude a dar à floresta um empurrãozinho para se transformar numa savana.”, argumenta.

Outras perturbações são causadas diretamente pelo homem, como a extração “seletiva” parcial, ou corte raso da floresta que, posteriormente, deixando-a em pousio para a vegetação natural. Os incêndios iniciados por pessoas para manejar terras desmatadas também podem queimar as florestas amazônicas próximas durante a estação seca e causar distúrbios.

“O fogo em florestas antigas da Amazônia é meio chocante”, disse Stark. “Essas são florestas tropicais sem nenhuma história real de fogo natural, logo, você pode imaginar que algumas árvores podem morrer depois de terem seus troncos danificados pelo fogo. No entanto, não sabemos realmente quais são as consequências disso para o futuro da floresta por causa de todas essas novas pressões que agora enfrentam a floresta”, disse explicando que após uma determinada perturbação como o fogo, as florestas podem ser resilientes e se recuperar para a floresta tropical original, ou podem permanecer abertas e se tornar uma savana com menor valor para o combate às mudanças climáticas. “Precisamos saber como os diferentes tipos de distúrbios e as diferentes condições de mudança climática possíveis afetam essas probabilidades para saber se teremos floresta ou savana no futuro, e isso é um problema difícil”, disse.

Buscando respostas, Stark e os demais pesquisadores foram capazes de conduzir avaliações rápidas usando a tecnologia do sistema LIDAR portátil e instalando torres temporárias acima do dossel em florestas perturbadas. Eles obtiveram um pequeno conjunto de dados que ajudou a entender como diferentes histórias de distúrbios florestais mudaram essas condições locais. Os resultados mostraram contrastes interessantes que ajudam a enquadrar as mudanças na floresta tropical em um quadro mais geral entre floresta e savana. Um local comparou uma floresta tropical não perturbada com uma floresta impactada por fogo e uma savana natural. Este é um local de estudo particularmente valioso - Alter do Chão, Pará, Brasil - porque oferece um contraste de floresta natural e savana no centro da floresta amazônica, onde secas e incêndios podem estar convertendo mais floresta em savana.

Durante a excepcional 'temporada de incêndios' de 2019, a savana e o mosaico florestal de Alter do Chão foram fortemente afetados pelo fogo; Stark e colaboradores no Brasil da Universidade Federal do Oeste Pará (UFOPA) estão começando a documentar os danos e mudanças futuras na floresta.

Outro local onde a equipe de Stark avaliou, rapidamente, um gradiente de mudança na floresta foi a centenas de quilômetros a oeste numa famosa área de pesquisa ecológica em Manaus, Brasil, chamada de Projeto de Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais. Essa área incluía floresta tropical madura, uma floresta com 25 anos de idade crescendo desde o corte raso anterior e uma área próxima semelhante a uma savana aberta, onde o desmatamento anterior era mantido pela aplicação anual de fogo pelos fazendeiros.

Apesar das grandes diferenças nos distúrbios que criaram os gradientes florestais nesses locais, os impactos das mudanças nas florestas na temperatura local e nos fatores relacionados que afetam a atmosfera - chamados de fluxos de calor - foram muito semelhantes.

“Isso nos dá esperança de que, se soubermos a mudança exata no dossel da floresta, possamos prever o que isso significa para as condições locais do dossel”, disse Stark. “Isso é ótimo porque agora temos tecnologia baseada em aeronaves e satélites, especificamente sensoriamento remoto Lidar, que pode nos dizer rapidamente quais são as características tridimensionais exatas das florestas.”

Outro local onde a equipe de Stark avaliou rapidamente um gradiente de mudança na floresta foi centenas de quilômetros a oeste em uma famosa área de pesquisa ecológica em Manaus, Brasil, chamada de Projeto de Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais. Essa área incluía floresta tropical madura, uma floresta com 25 anos de idade, crescendo desde o corte raso anterior e uma área próxima semelhante a uma savana aberta, onde o desmatamento anterior era mantido pela aplicação anual de fogo pelos fazendeiros.

Apesar das grandes diferenças nos distúrbios que criaram os gradientes florestais nesses locais, os impactos das mudanças nas florestas na temperatura local e nos fatores relacionados que afetam a atmosfera - chamados de fluxos de calor - foram muito semelhantes.

“Isso nos dá esperança de que, se soubermos a mudança exata no dossel da floresta, possamos prever o que isso significa para as condições locais do dossel”, disse Stark. “Isso é ótimo porque agora temos tecnologia baseada em aeronaves e satélites, especificamente sensoriamento remoto Lidar, que pode nos dizer rapidamente quais são as características tridimensionais exatas das florestas.”

Mapas Tridimensionais – De acordo com Stark, em breve, teremos uma primeira geração de mapas tridimensionais digitais de toda a floresta amazônica, para que possamos realmente estudar em detalhes como as perturbações do dossel mudam as condições da floresta e como essas condições decidem se a floresta impactada permanece floresta ou se torna uma savana. Isso seria um grande avanço. ”

O perigo de incêndio na Amazônia, atualmente, também representa ameaças adicionais à vida humana. Com as condições atuais, incluindo enormes aumentos no desmatamento nos últimos dois anos e a probabilidade de seca na Amazônia ocidental, há um potencial crescente para uma temporada dramática de incêndios que se estende até o final do ano. Já entre janeiro e agosto de 2020, foram 54.559 incêndios detectados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e os números de incêndios na Amazônia, nesta janela de tempo, são os piores em uma década, refletindo a expansão do desmatamento. A preocupação agora paira sobre o aumento da poluição por fumaça desses incêndios e seu impacto negativo significativo na saúde humana.

A Amazônia tem uma das maiores taxas de infecção de COVID-19 do mundo, e muitos residentes da Amazônia não têm acesso a tratamento médico de qualidade ou equipamento de proteção individual. As preocupações para as pessoas afetadas por COVID-19 são grandes, pois a inalação de fumaça tem efeitos graves, inflamando seus pulmões e vias aéreas, fazendo com que inchem e bloqueiem o oxigênio. Isso pode ser fatal para aqueles já afetados por um vírus respiratório perigoso.

Analisar o clima atual e as rápidas mudanças que acontecem na Amazônia, a savanização e a armadilha de fogo são fundamentais para entender o futuro da Amazônia, a segurança de seus povos nativos e o futuro do meio ambiente global.

Grupo de pesquisa em Biogeofísica da Região Amazônica e Modelagem Ambiental (Brama-Ufopa), com informações da Universidade de Michigan (UMichigan).



*Talita Baena*
Jornalista
MTb 1991-PA
Me.Ciências da Comunicação (UFPA)
Doutoranda em Ciências Ambientais (UFOPA)
Notícia cadastrada em: 23/09/2020 16:09
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