ESCREVIVÊNCIAS DE TRABALHO: POÉTICAS DE RESISTÊNCIA EM SANGUE NEGRO DE NOÉMIA DE SOUSA E POEMAS DA RECORDAÇÃO E OUTROS MOVIMENTOS DE CONCEIÇÃO EVARISTO
Escrevivências; relações de trabalho; Noémia de Sousa; Conceição Evaristo.
O objetivo desta pesquisa é identificar quais estratégias discursivas são utilizadas para formalizar o ato da Escrevivência em torno das relações de trabalho que envolvem as mulheres negras por meio de estudo comparado das obras Sangue Negro de Noémia de Sousa (Moçambique) e Poemas da recordação e outros movimentos de Conceição Evaristo (Brasil). Escrevivências são compreendidas aqui como o ato de escrita de mulheres negras (Evaristo, 2020) que encontram no fazer literário a possibilidade de inscrição de si e de uma coletividade a qual pertencem. A metodologia utilizada combina o conceito de Redução Estrutural (Candido, 1976), a partir da compreensão da crítica integradora proposta pelo autor, aos pressupostos da Literatura Comparada (Coutinho, 2014), cuja abordagem propõe uma análise contextualizada, considerando as especificidades dos lugares de produção das obras estudadas. A análise demonstrou que, em Sangue Negro, Noémia de Sousa constrói um movimento “Akoben”, que parte da denúncia de um circuito enclausurante que o colonialismo estrutura na vida da mulher trabalhadora para a identificação e enfrentamento ao agressor. A poética é estruturada pela via da resistência, do enfrentamento e da contra-violência. Já em Poemas da recordação e outros movimentos, Conceição Evaristo utiliza um movimento “Sankofa” que busca, no passado, as raízes da exploração laboral da mulher negra para explicar o presente e projetar, no futuro, a esperança.