ANÁLISE DA ESTRUTURA E COMPOSIÇÃO FLORÍSTICA DE UMA ÁREA DE FLORESTA DE TERRA FIRME APÓS 20 ANOS DO ENCERRAMENTO DE UM EXPERIMENTO DE EXCLUSÃO DE CHUVAS NA AMAZÔNIA ORIENTAL.
Seca experimental; Floresta Amazônica; Estrutura florestal; Composição florística; Dinâmica de biomassa; Resiliência ecológica.
A Floresta Amazônica desempenha papel essencial na regulação climática, no armazenamento de carbono e na manutenção da biodiversidade. Em um cenário de intensificação das secas associadas às mudanças climáticas, compreender a resiliência estrutural e florística das florestas de terra firme, torna-se fundamental. Este estudo avaliou a dinâmica de recomposição da vegetação após 20 anos do término de um experimento de exclusão de chuvas conduzido na Floresta Nacional do Tapajós (Belterra, PA). Foram comparadas duas parcelas permanentes de 1 ha, uma submetida à exclusão de precipitação entre 1999 e 2004 e outra mantida como controle, utilizando inventários realizados em 1999, 2004 e 2024. A análise da estrutura vertical, diamétrica e da biomassa acima do solo (BAS) revelou que a parcela tratamento apresentou trajetória distinta da parcela controle, com redução do recrutamento, menor proporção de indivíduos nas classes inferiores de DAP e estabilização da biomassa em um patamar inferior ao inicial. Em contraste, a parcela controle mostrou incremento contínuo de BAS e crescimento nas classes intermediárias, compatível com florestas maduras não perturbadas. A composição florística evidenciou um filtro ambiental imposto pela seca, com retração de espécies sensíveis (Coussarea albescens, Tachigali chrysophylla) e expansão de espécies mais tolerantes à limitação hídrica, como Protium spp., Eschweilera spp. e Guatteria spp. O índice de Sorensen indicou elevada similaridade florística entre as parcelas em 1999 e 2004 (>0,86), mas forte divergência em 2024 (0,46), refletindo mudanças na composição e perda diferencial de espécies na parcela afetada. A diversidade caiu significativamente em ambas as parcelas em 2024, embora o controle tenha mantido valores superiores (Shannon = 3,92) em relação ao tratamento (3,64). Os resultados demonstram que os efeitos da exclusão de chuvas persistem por décadas, influenciando mortalidade, recrutamento, biomassa e composição florística, conduzindo a floresta a um novo estado de equilíbrio estrutural. Em um contexto de aumento das secas extremas na Amazônia, estes achados reforçam a necessidade de estudos de longo prazo para compreender a vulnerabilidade e a capacidade adaptativa das florestas tropicais frente às mudanças climáticas.